As fatalidades em Piedrahita são duras de aceitar... duras porque sabemos o que é estar no ar e nos consciencializam dos riscos que o nosso desporto encerra. E porque sabemos o que é estar no chão com a responsabilidade de assegurar as melhores condições para que os pilotos possam voar tranquilos e as suas famílias os possam acolher de volta sãos e salvos.
Como a informação sobre o que se passou ainda é escassa e as reacções se focam na CIVL e na sua inacção perante as constantes tragédias nos campeonatos do mundo... na sua passividade em regulamentar.
Escrevo esta nota como desabafo, com esperança num futuro risonho para a nossa modalidade neste momento em que muitos se questionam se competição, assim, faz sentido.
Hoje sou a favor de uma regulamentação severa nas asas. Asas que tenham passado pelos testes de certificação em vigor e se limitem a classe 2-3 (D) ou mesmo inferior, 1-2 (B) no máximo.
Mas amanhã estou a torcer para que uma nova evolução de asa me permita voar mais e em maior segurança... com melhores taxas planeio, com uma polar mais alargada.
Mas vidas humanas são um preço demasiado alto.
Um conhecido e experiente piloto britânico,
Mark Hayman abdicou do seu lugar na sua equipa nacional por não se sentir preparado para assumir os riscos de voar numa asa com apenas duas bandas. Hoje, a Internet fervilha com referências a esta desistência... e com apelos a que outros pilotos de renome pressionem a CIVL.
Não creio que seja por terem duas bandas, vários pilotos têm referido que até se sentem mais confiantes nestas asas do que noutros protótipos que voaram no passado. O Stefan Schmoker voava com mais do que duas bandas.
O problema está em que essas asas são ainda pouco maduras para serem voadas com regularidade em condições em que se exige o máximo de tudo... da performance e do piloto...
Por isso se chamam protótipos!
A Fórmula 1 alterou substancialmente as regras do jogo, com o trágico despiste, em Imola, em 1994, do Senna. E acrescentou mecanismos de segurança aos carros... inclusivamente para diminuir a velocidade!
E ainda assim continua a haver evolução nos automóveis... e todos beneficiamos disso.
Porque não se aplica a mesma filosofia ao Voo Livre? Afirmando que primeiro se deve ter uma competição segura e será para isso que os construtores têm de trabalhar...
Para o final desta semana, dia 8, está previsto o último lançamento do Space Shutle e a razão principal: Segurança! Depois da
trágica reentrada do Columbia, em 2003, todo o programa parou e foi reavaliado em termos de segurança. Foram introduzidos procedimentos de verificação e de salvaguarda das condições de operação dos restantes aparelhos... e mais... foi decidido que o risco deixou de compensar.
Eu lido com inovação, sei que é preciso empurrar as fronteiras do mundo que conhecemos para evoluirmos, sei que é necessário arriscar, muitas vezes vidas, para se descobrirem mundos novos... quantos morreram em caravelas nas águas dos oceanos?
Mas isto é um desporto... a evolução tem de ser mais segura, mesmo que seja mais lenta.
E já não estamos no século XV.
Sei que esta nota já vai longa, mas tenho ainda de referir uma coisa:
É que também sou culpado: também encorajo os nossos campeões a voarem naquelas máquinas infernais... Quero vê-los ganhar! Um dos critérios de selecção foi precisamente a asa não ser de série, e eu concordei! Desculpem...